Historia da ACANNE


Mestre Renê na Africa

"Por cima do mar eu vim, por cima do mar eu voltei pra África"

O Mestre Renê na Rota dos Ancestrais

Na minha viagem a Cabo Verde, tive a oportunidade de ir em busca das minha origens africanas.

Foi muito angustiante esperar muitas horas de vôo para chegar na África, mas teve uma hora em que me dei conta de que faltava pouco para eu pisar no solo sagrado da mãe África. Quando cheguei na ilha do Sal, como todo afro-descendente supersticioso, pus o pé direito e gritei: “estou pisando em terra africana!”. Quatro horas depois, peguei outro avião para o meu destino final: a ilha de São Vicente.

Meu coração batia muito forte. Estava realizando um dos meus sonhos. Ao chegar em São Vicente, mais uma vez, pisei o solo com o pé direito. Quanto mais eu me afastava do avião, mais eu me enchia de felicidade, mais meu coração batia. Eu sentia que algo me puxava. Foi aí que ouvi o som mágico de um instrumento sagrado: o berimbau. E lá estava eu diante de uma belíssima roda de capoeira. Eu me senti levitando de tanta felicidade. Toda aquela gente esperando para ver vadiar, pela primeira vez, em Cabo Verde, um dos guardiões da capoeira angola da Bahia. Até então eles não conheciam essa arte. Essa roda se tornou a mais importante de minha vida. Vadiar na terra-mãe África e poder ajudar a contar a história da trajetória de resistência do povo africano em terras brasileiras.

Nos dias que passei lá, houve momentos em que eu fiquei muito decepcionado com o jeito de ser dos moradores da ilha de São Vicente. Eu não entendia nem o por que de tanta vontade das pessoas de usarem roupas, bonés, toalhas com a bandeira americana, nem a afinidade deles com a Europa. Todos sabem da história de exploração do continente africano pelos povos europeus e norte-americano.

Numa entrevista que dei a uma emissora local, a jornalista me perguntou se o que eu tinha visto até então, em Cabo Verde, era o que eu estava esperando e o que eu levaria dessa viagem na minha volta para o Brasil. Eu respirei fundo e, lembrando da identificação do afro-descendente, na Bahia, com as suas raízes negras e da sua luta pelos seus direitos, respondi que eu tinha vindo da África e não sabia.

Ao terminar a entrevista, eu sai andando da emissora para o hotel onde estava hospedado. Nessa caminhada, eu me lembrei que meu amigo Jamaica, um capoeirista nascido e criado em Cabo Verde, na noite anterior, tinha me dado um presente muito especial: um cartão com uma frase do profeta Malcon X que dizia: “você não pode odiar as raízes de uma árvore sem odiar a árvore. Você não pode odiar suas origens sem acabar te odiando. Você não pode odiar a terra da sua mãe, o lugar de onde você veio e nós não podemos odiar a África sem acabar nos odiando”.

Eu tive então de fazer dos olhos candeia para encontrar o que eu estava procurando. Conversando com alguns senegaleses, eles me falaram: “Renê, você precisa visitar outras ilhas, conhecer os mandigas, a ilha do fogo, o povo da praia, todas as pessoas que são chamadas de ‘badio’ por manter viva, com muito orgulho, a chama da liberdade da mãe África. A partir daí, eu descobri muitas coisas maravilhosas. Eu fiquei muito feliz em saber o quanto é importante para os cabo-verdianos falar o crioulo, um dos instrumentos mais forte que eles têm para manter vivo seus ancestrais. Não existem escolas onde se ensina o crioulo. Lá se diz que os cabo-verdianos já nascem falando crioulo, depois é que aprendem a ler e escrever português. Essa é uma prova de que os angoleiros estão certos quando dizem que podemos viver no século XXI e continuar contando e cultivando a sabedoria da nossa raça. A partir daí, foi só alegria. Saí do centro da cidade e passei a conviver com as pessoas que realmente são guardiões da nossa herança cultural.

Foi no toque de angola que eu ensinei capoeira para os africanos. Foi uma experiência maravilhosa poder contribuir com meus irmãos africanos. Foi fácil ensinar-lhes a capoeira angola. Na verdade, eu só fiz eles despertarem o que já tinham dentro de si. Para isso, contei com a ajuda do mestre Carlos Xexéu que, antes da minha chegada a Cabo Verde, falou para os seus alunos sobre a importância de conhecer a história da capoeira angola para o aprendizado da capoeira contemporânea. Eu parabenizo o Mestre Carlos Xexéu pelo trabalho maravilhoso que vem desenvolvendo em Cabo Vede... E vamos vadiar !!!