Capoeira Angola


Mulher na Capoeira Angola

A mulher "caiu na capoeira": A questão de gênero na cosmovisão Africana

Os valores civilizatorios da cosmovisao africana se pautam ontologicamente por uma visão de mundo no qual as forcas e as relações de gênero se manifestam simbioticamente. Senão vejamos: em todos as cosmogeneses dos grupos étnicos a criação do mundo, do cosmo ou do universo, não foi obra do autoritarismo patriarcal e sim do compartilhamento onde ambos os gêneros dão movimento e existencialidade ao cosmo, bem como a todos os seres e objetos animados e inanimados.

"A África nunca conheceu o machismo tão típico das culturas semitas e indo-européias. O sistema familiar africano e matrilinear, pois o conceito de parentesco e uterino. As pessoas são parentes porque provem do mesmo útero e não da mesma semente. A mulher africana tem um papel iminente na sociedade: e considerada o elemento central da família e do corpo social (...)"

A irrupção islâmica no contexto geográfico da chamada África negra abaixo do Saara, produziu a primeira violência no seio dos valores civilizatorios negros africanos, interferindo fundamentalmente na práxis da concepção de gênero, introduzindo por conta da teologia e da filosofia islâmica a subalternização do papel da mulher e suas mutilações como a circuncisão no homem e a clitoridedctomia ou a labiectomia na mulher.

Depois da ação danosa do Islamismo, a África e seus povos foram vitimas do mercantilismo europeu que sob a benção da Santa Madre Igreja Católica que sendo junto com Islao, religiões consideradas "reveladas" e portanto de cunho proselitista, efetivaram os estragos mais perversos e de forma mais continuada.

Sobre a África e seus grupos étnicos, ainda paira no inconsciente coletivo da população detentora da ideologia ocidental e judaica crista, concepções errôneas que por desconhecimento ignorância ou má-fé, demonstram nestes mais de quinhentos anos de "descobrimento do Brasil" estar adquirido uma certa naturalização da inferioridade natural dos povos negros.

Neste ideário os pressupostos que justificaram as invasões e a perpetração das barbáries aos povos africanos num passado histórico não tão remoto, configuram-se numa condição cognitiva europocentrica e que num continuum se rearticula contemporaneamente no tripé neocolonialista das ações do neoliberalismo, da globalização e da inculturacao da fé ou do evangelho.

ACANNE (Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro), se inscreve na determinação política do combate ao machismo e sexismo, através do resgate dos conceitos civilizatorios da visão de mundo africana, reterritorializando-os simbólica e materialmente na sociedade brasileira, possibilitando desta forma, a recomposição do seu conceito, da auto-imagem e da auto-estima da população afrodescendente.

Na Capoeira Angola, "o corpo negro ajusta sinerfias neuromusculares com imperativos de resistência cultural", "a forca da mulher vai aparecer e sobressair pelo principio do equilibro de forcas e pelo respeito aos papeis que desempenha, sendo portadora de muito axé---forca de vida--viabilizando sua expansão e preservação através dos rituais."

Porto Alegre, 17 de Fevereiro de 2003

 


Mulher na Capoeira Angola:

Texto de Cris Bárbara Christina Bittencourt

A Capoeira Angola me proporcionou muitas oportunidades e conhecimentos sobre a minha cultura, e eu sempre me perguntava como poderia retribuir tudo que ela me deu. Então veio a oportunidade de desenvolver o trabalho na ACANNE da Fazenda Grande do Retiro. O grupo está crescendo e o Mestre Renê não pode estar em tantos lugares ao mesmo tempo. Ele precisa, pois, de discípulas (os) para ajudá-lo a organizar e administrar o grupo. Para mim, está sendo um prazer realizar esse trabalho na Fazenda Grande, o lugar onde tudo começou, dando início à ACANNE, nosso quartel general e onde me iniciei no mundo da Capoeira Angola.

O público da Fazenda Grande não tem acesso a muitas informações. Eu me sinto no dever de ensinar às crianças, adolescentes e adultos de lá, não só a capoeira propriamente dita, mas também levantar a questão da negritude e da ancestralidade afro-brasileira.

Acredito que esta oportunidade não surgiu por acaso. Penso que a capoeira exige uma prova da minha capacidade e conhecimento para que eu possa assumir a responsabilidade de levar adiante o nome de Mestre Paulo dos Anjos, Mestre Canjiquinha e Mestre Aberrê, que lutaram contra a cultura dominante para não perderem suas raízes africanas. Agradeço a ACANNE por isso.